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João Luiz Vieira
Do gorro de crochê à bota de couro, Rosana Maria dos Santos se produziu toda para o evento que parou a Daslu, a loja que é o templo do luxo em São Paulo, na quarta-feira. Até renovou o guarda-roupa no Largo de Santo Amaro, centro de comércio popular da zona sul. Rosana é a líder da comunidade do Coliseu (eufemismo para a Favela do Funchal) , que fica ao lado da loja, e foi à Daslu para o coquetel e a palestra de lançamento do livro Falcão, do rapper MV Bill.
O livro conta o drama dos meninos traficantes nas favelas do Rio de Janeiro. É um drama desconhecido dos freqüentadores da loja. A única vez que a polícia entrou ali foi para recolher documentos no processo que acusa a proprietária, Eliana Tranchesi, de sonegar R$ 10 milhões em impostos de importação. Rosana foi convidada porque Eliana banca um projeto assistencial na favela, orçado em R$ 60 mil.
Inclui quadra de esportes, playground e uma sede para cursos de informática e costura. Rosana diz que Eliana é uma de suas melhores amigas. 'Ela foi à favela e disse até que as casas por lá são bem limpinhas'.
MV Bill chega de braço dado com Eliana. Ela está sorridente. Ele, de cara fechada. 'Bill é nosso porta-voz para a elite, que não sabe o que é não ter comida no prato', diz. Rosana, representante da Central Única das Favelas em São Paulo. 'Finger food', avisa o garçom, passando sanduichinhos de pasta de tomate seco, peito de peru e presunto de Parma. Bill fala com um repórter, ouve elogios do ex-rninistro da Justiça José Gregori, posa para fotos. Eliana dá entrevistas - 'Fui acusada por todo mundo, mas ninguém quis saber quanto eu pago a meus funcionários. Meu filho, por exemplo, tem a mesma assistência médica que os filhos dos meus funcionários. Eu mesma comprei o livro para meus filhos lerem', diz.
A platéia é composta de funcionárias da loja, estudantes e jovens de comunidades carentes, além de umas poucas celebridades - o VJ Cazé, a ex-ministra Claudia Costin. 'Queria um refrigerante. Vem comigo?', diz uma convidada a uma amiga. 'Mas não deixa a bolsa aí. Nunca se sabe'. Três 'aventaizinhas', como são conhecidas as serviçais da Daslu, se postam nos corredores segurando microfones para as perguntas da platéia. Começa a palestra.
'Nunca aceitei a condição de vida na favela, nunca aceitei a maneira como os pretos são tratados. A favela é a senzala de hoje', diz Bill. Perguntas. Aplausos. Ele rebate as críticas do escritor Ferréz, também do movimento negro, que acusa Bill de perpetuar a imagem de que na favela só há criminosos. Aplausos. A platéia é avisada que o rapper tem de pegar um vôo de volta para o Rio.
A sala começa a se esvaziar. A socióloga Lúcia Ribeiro, que trabalha com crianças de rua, toma o microfone. 'O consumismo é uma das causas dessa tragédia. Estamos no templo do consumo, temos de falar disso também. Isso aqui para mim é violência. Somos vítimas do tráfico? Nós somos responsáveis pelo tráfico' , diz. Ensaia-se uma vaia. 'Pelo sonho de consumo de comprar um tênis, quem está na favela às vezes mata. Para comprar um tênis da Daslu precisaria matar muito mais' , continua. Rosana pega um microfone. 'Aqui no bairro não tinha nada. A Daslu ofereceu coisas que ninguém ofereceu'. Aplausos. Os apresentadores agradecem. 'Até que pouca gente foi embora', diz o rapper Aliado G. Surgem os garçons, trazendo bandejas de espumante prosecco. 'Finger food', anunciam.
| | Clique aqui para mais informações | Fonte: Época / Data:10/04/2006 |
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